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Também a língua é um fogo. Existem fogos que purificam, aquecem e são fonte de energia.
E existem fogos que destroem.
A língua, como o fogo, é ambivalente. Antes, porém, de tratarmos das chamas, será oportuno que pensemos um pouco nas cinzas.
Porque, de fato, há línguas que não têm as qualidades, positivas ou negativas, do fogo, mas são apenas cinzas apagadas, neutras.
É a essa palavra-cinza que Cristo dá o nome de palavra “ociosa”, termo que também pode ser traduzido por palavra “vã”, ou palavra “inútil” (cf. Mt 12, 36).
O que impressiona em Nosso Senhor Jesus Cristo é a severidade com que se refere a esse tipo de palavras;
Justamente após ter ensinado que a boca fala do que lhe transborda do coração;
E de que o homem manifesta pela palavra o bom ou o mau tesouro que tem dentro de si:
Eu vos digo: no dia do juízo, os homens prestarão contas de toda a palavra ociosa que tiverem proferido.
É por tuas palavras que serás justificado ou condenado (cf. Mt 12, 34-36).
São afirmações enérgicas que fazem pensar e que talvez nos deixem perplexos.
É natural que ao ouvi-las nos perguntemos se Nosso Senhor Jesus Cristo;
Ao falar assim, quis porventura reprovar toda a espécie de fala ligeira, sem especial profundidade e proveito.
Neste caso, estaria condenada, por exemplo, a prosa intranscendente e bem-humorada que se desenrola à volta da mesa numa comemoração familiar;
Ou o diálogo divertido no ônibus durante uma viagem de férias;
Ou a conversa de uma roda de amigos em torno de uma moderada cerveja…
Quem conheça um pouco o Evangelho logo descartará essa interpretação rígida e desumana;
Pois bem sabe que o próprio Cristo Jesus manteve conversas de uma deliciosa simplicidade familiar;
Com sua Santíssima Mãe e São José, com os seus discípulos, com Marta, Maria e Lázaro…
Nosso Senhor, quando era tempo de conversar familiarmente;
Fazia-o com singeleza e, sem dúvida – como deixa entrever o Evangelho –, alegremente e com uma boa dose de simpatia.
Ora, essa conversa não é palavra inútil, é palavra humana, palavra cordial, palavra afetuosa, palavra que alegra e que, deste modo, traz consigo a carga positiva do amor.
Palavra ociosa é aquela que não carrega consigo nada de bom, porque está vazia de ideias e sentimentos e, portanto, é inútil para o amor ou para o ódio.
Com esse tipo de palavras, sim, devemos preocupar-nos, e estar cientes de que prestaremos boas contas a Deus de todas elas:
Das palavras sem substância alguma, sem interesse, afeto, ajuda, alegria ou verdade;
Que ocupam com a sua estéril presença o lugar que deveriam ter ocupado palavras construtivas.
São palavras ociosas, sobretudo, as palavras gastas, formais e sem vida, que se dizem gélida e cansadamente;
Na vida familiar, no relacionamento profissional, na conversa de amigos, quando a convivência já se tornou uma ruína decadente.
Tais palavras rotineiras, sem calor nem cadência de afeto, sem vibração de pensamento, sem entusiasmo nem idealismos escondidos em seu bojo;
São uma monótona e persistente chuva de cinzas, que vai sepultando o amor.
Famílias outrora unidas, amizades velhas que acabaram;
Sabem desse mau sabor de cinzas, que é apenas o gosto do vazio, do bolor da alma empobrecida, dos resíduos de ideais queimados.
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Fonte: Do livro “A Língua” do Rev. Pe. Francisco Faus.
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