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Encontram-se muitas pessoas, e não é só entre os mundanos,
Mas entre mesmo aqueles que fazem profissão de vida espiritual;
Que ao passo que nas suas relações sociais com os estranhos se excedem em manifestações de afabilidade, de indulgência e humildade;
Na sua vida de família, no seu trato com os de casa, são pelas suas maneiras altivas e de pouca consideração;
Pelo seu caráter áspero e desabrido, a cruz e o tormento de quantos moram na sua companhia;
Vindo assim a desmentir com a sua conduta na vida privada, a humildade e bondade de que fazem alarde na sua vida pública.
De todos os que assim procedem diz com razão São Francisco de Sales que “parecendo anjos na rua, são demônios em casa”.
Trabalha tu com diligência, leitor devoto, por adquirir um caráter doce e afável;
Porém de modo que a tua doçura não seja como a que fica dita, meramente exterior, circunstancial e afetada, mas cardial, constante e sincera;
Nascida da humildade e da caridade cristã.
Sê doce e afável com todos, porém sê-o em especial com as pessoas da tua família;
Porque estas mais que ninguém têm o direito de experimentar os efeitos da tua bondade e recolher os frutos da tua edificação.
Se se trata de teus pais, quem haverá com mais direito que eles às provas do teu carinho e a que os trates com doçura?
A eles deves o ser, o sustento, a educação;
Eles têm passado e ainda passarão por ti mil privações e sacrifícios; em ti têm concentrado todo seu afeto:
O teu bem é o seu próprio bem, a tua felicidade a sua, e por isso olham todos os meios de procurar o teu bem estar temporal e eterno;
Não obstante tu talvez nunca teres parado um momento a considerar estes múltiplos benefícios, de que lhes é devedor.
Não será pois uma crueldade e uma ingratidão corresponder a tanto amor e pagar tanta bondade com atos contrários à piedade filial e à doçura a saber:
Com frases pouco respeitosas, de forma altiva, com exigências injustificadas, com demonstração de indiferenças, com impaciências, com desobediências, com desdém…?
Como não há de sofrer o seu coração, se veem que seu filho ou filha deixa para os estranhos todas as manifestações de bondade e de doçura;
E só para os seus pais têm reservada a aspereza do seu caráter?
Pode isto de algum modo agradar a Nosso Senhor?
Pode tão pouco servir de edificação ao próximo?
Ao contrário, se um filho ou filha é humilde, meiga, e deferente com os pais: se lhes dá provas de amor e agradecimento;
Se os trata com respeitosa afabilidade; se se esmera em agradar-lhes em tudo o que não for pecado;
Se lhes obedece docilmente, até cumprir de bom grado as suas menores indicações e desejos;
Se suporta com paciência os seus achaques, enfermidades ou defeitos… que grande satisfação e consolo não lhes proporcionará com isso!Como alegrará os dias da sua velhice!
Que paz e bem estar espalhará no seu lar!
Como agradará com a sua conduta a Deus Nosso Senhor!
Quanto merecerá na divina presença!
Quanto edificará, enfim, aos mais com os exemplos da sua doçura filial!
Se se trata do marido ou da esposa, dos filhos ou dos irmãos, quer estes o sejam pelo sangue, que pela Religião;
Também é preciso que lhes mostres doçura e afabilidade.
Eles amam-te e desejam vivamente que lhes correspondas por tua vez com manifestações de afeto;
E ainda que assim não fosse, mesmo que eles não te amassem, tu, por amor de Deus e do próximo;
Terias o dever de sacrificar-te e de dar bom exemplo mediante o exercício da bondade e da doçura.
E cumprirás este gratíssimo dever, oferecendo na tua casa ou no seio da comunidade a que pertences;
O espetáculo de uma frieza e indiferença desdenhosa para com os teus;
De um caráter extremamente reservado, de uma altivez insuportável;
De palavras de desconsideração ou injuriosas, de arrebatamento de despeito ou de ira?
Que triste é ver-se desenrolar no seio da família e entre pessoas piedosas o gérmen da falta de afeto ou da desarmonia!
E pelo contrário, que belo e consolador é o espetáculo de um lar ou de uma comunidade qualquer onde reina uma cordialidade santa, doce e afável!
Então é quando se cumprem aquelas palavras do real Profeta:
“Oh, como é bom e doce, viverem os irmãos em mutua união”.
Esta cordialidade e doçura recíprocas com que se portam, vem a ser em frases da Sagrada Escritura;
Como o aroma suave e perfumado que descia até a orla do vestuário de Aarão.
Honrai a vossa devoção, revesti-a de grande amabilidade para com todos os que vos conhecem, e em especial para os da vossa família.
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Fonte: retirado do livro “A perfeição cristã segundo o espírito de São Francisco de Sales” de Emílio Gonzalez y Gonzalez
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